Batom. Delineador. Balinhas pro hálito. Espelho. Pentinho. Desodorante roll-on e perfume não, Beth não os levou, apenas fazem parte da lista. Canivete (não pergunte). Tudo nos trinques. Tudo mesmo, até o cara: bem sucedido, bonitinho
trabalhando em firma de advocacia, que nem ela. Ambos profissionais de sucesso, concordaram em rachar a conta, sem cavalheirismos desnecessários. Ele respeitava a independência dela, e ainda por cima escolheu um restaurante muito bacana, o Truta Traidora. OK, o nome não é bacana como trava-língua talvez , mas o ambiente, o serviço, é tudo show de bola, eu juro. Além do mais, podia ser pior: podia se chamar Traíra Traidora.
Tá legal, eu vou ser honesto: não estava tudo nos trinques. O carro resolveu quebrar bem na semana do encontro. São seis e meia, e eles marcaram às oito. Uma hora e meia é MUITO pouco se ela depende de um ônibus.
Por que ele a esperou fazer 26 anos pra aparecer na vida dela? Por que ela não se envolveu com quase ninguém antes dele? Por que ela considerava a atual condição "se envolver", se ainda são só amiguinhos e isso é só o primeiro encontro?
Beth nem se lembrava mais daquela aula de antropologia que parara de freqüentar, melhor conhecida pela classe popular como "pondiômbus": um pirralho que fala demais, a senhora de idade que já tem o assento garantido, uma garota com cara de importante que fala bem pouco, meio que para compensar o pirralho ah, espera, essa é ela , e alguém com um dos quatro membros virados numa direção errada, mas ninguém fica reparando, seja por educação, seja porque não tem mais graça, já que diariamente tem um erradinho por lá. A eternidade esperando em pé já durava meia hora, e levava a moça ao extremo da impaciência e da cãibra nos pés.
Eis que então chega a caixa de lata vagarosa, a lesma gigante de quatro rodas que nem tem cinto de segurança. O motorista e o cobrador até tinham cara de gente fina, mas ela estava preocupada demais com o chão preto de poeira para olhar para os demais seres vivos no ônibus. Pelo menos tinha ar
Com a cara amarrada com um nozinho muito competente, daqueles de escoteiro, o que ela foi, aliás, por alguns anos , ela deu o dinheiro exato ao cobrador e girou a roleta, sempre evitando contato visual.
Caranga mais ou menos cheia. Obviamente ela foi a um par de assentos vazios, que com sorte permaneceriam vazios até o seu destino.
A menininha que sempre usou ônibus à força e cheia de nojinho confirmava na idade adulta seu status de madame. Intencionalmente distante do que quer que ocorresse dentro do veículo, procurou focar a situação lá fora, o caminho que o ônibus fazia. O passatempo mais sensacional em que pôde pensar foi brincar de provar que o carro é mais rápido e confortável, que o ônibus dá voltas inúteis para cobrir áreas em que ninguém mora.
Jogo facílimo. Estavam passando pela mesma rua de antes. A moça distinguiu imediatamente a seqüência padaria-concessionária-igreja se repetindo. É bem chato terem bolado uma rota que exige que se vá duas vezes ao mesmo lugar. Ela tentou arduamente esquecer a idiotice logística de que era vítima, olhando o resto do caminho.
Nada mudou só por ela estar numa altura maior. É a mesma cidadezinha sem graça de sempre, da qual ela sairia assim que arranjasse grana, o que não tardaria muito a acontecer, pois a carreira profissional ia de vento em popa; a amorosa decolaria um pouquinho hoje se nada desse errado.
Na verdade já deu, né, seu carrinho importado a traiu neste dia importante. E aquela loja de tintas, hmmm, sei não, hein, parecia familiar. Calma, garota, talvez sejam lojas parecidas, não se irrite (mais) à toa. E mesmo se estiverem passando pela 2ª vez por aqui
Acontece, poxa. Guarde essa raiva toda para o caso de uma terceira vez. Aprecie a vista, esse início de noite bonito. As pessoas passeando, sendo felizes, vivendo a vida nas praças, nos bares
Nas calçadas de todo lugar: padarias, concessionárias, igrejas
Como assim? DE NOVO? É isso aí, three is a charm. Hora de tirar satisfação com o trocador. "Vem cá, a gente já não passou aqui mais de uma vez?", ela inquiriu o homem, educadamente. Ele admitiu humildemente que o novo itinerário, recentemente imposto, precisava de aperfeiçoamentos.
Humildade não deixará o ônibus mais veloz, nem nossa heroína mais calma. Grrr. Ela voltou ao seu lugar na caranga. Sentou-se de braços cruzados e com a cara mais amarrada ainda agora um nó profissional, de marinheiro. Pra que continuar olhando o movimento da cidadela lá fora? Pra que se comportar e ter paciência? Ela comeu todas as verduras, fez a lição, não praguejou, bebeu só socialmente e bem pouquinho, pra quê? Pra ser sacaneada por um par de bufões que ganha menos de oito salários mínimos?
Quanto preconceito contra as classes sociais desfavorecidas, srta. Aspirante a Advogada! Que politicamente incorreta! Beth, imersa em raiva e ansiedade, se convencia mais e mais da necessidade de uma abordagem agressiva. O canivete de que falei no início é um companheiro inseparável que ela guarda na bolsa, lembrancinha do tempo de escoteira. A aurora de sua vida, sua infância querida, os anos não trazem mais, mas a fúria de embarcar numa viagem sem fim pode trazer.
"Desativa essa porcaria.", ordenou ela ao cobrador, ostentando a lâmina mais afiada do seu brinquedo. Ele não compreendeu a ordem.
Essa roleta, essa catraca, isso sai em caso de emergência. Arranca isso.
Do que a senhora 'tá falando? Eu não tenho como simplesmente apertar um botão e-
SENHORA? Beth tem menos de 50 anos, portanto, isso é um insulto. Chega, eu não preciso de você.
E pulou a catraca, em direção ao seu verdadeiro problema. Todos os passageiros ficaram atônitos e curiosos. Houve, é claro, quem ousasse se levantar para visualizar melhor o chilique.
Motoriiistaaa
Achou mesmo que não ia sobrar pra você? aproximou a lâmina do pescoço do pacato cidadão da civilização. Fingindo que não ouvia minhas reclamações
Ignorando a aflição do seu colega de trabalho
Sem falar no canivete tão perto do rosto dele
Mas agora tá mais perto ainda do seu! sorriu, triunfante. Aquilo é que era felicidade. Pôr objetos cortantes perto da garganta dos outros era um atalho para o nirvana! Finalmente ela estava se divertindo um pouquinho! Até esqueceu momentaneamente por que estava tendo o surto.
O que a senhora quer? pois é, faltava isso, faltava um motivo plausível pra tomar um ônibus inteiro como refém.
SENHO- fechou os olhos, respirou fundo e engoliu o orgulho; concentre-se na meta! Vamos, garota, você consegue! Escuta aqui, meu filho, eu tenho a sensação de que essa lata velha nunca vai chegar aonde eu quero. Eu tenho hora pra um compromisso importantíssimo, então, daqui a dois quarteirões, você vai pegar a esquerda, entendeu?
As exigências da seqüestradora foram gritadas, não sussurradas. Toda a população do veículo ouviu claramente. A maioria se simpatizou. Aquela joça dava uma voltas idiotas mesmo. Alguém tinha que mudar isso. Beth era uma heroína. Seu legado seria lembrado com carinho pelos habitantes da caótica cidadela móvel de lata.
Com um incentivo metálico afiado de aproximadamente 4 cm, o motorista lembrou facilmente o caminho até o restaurante. "Tá aí, madame, chegamos. Agora pode tirar essa coisa de mim?", questionou o motorista, acuado, porém sem nunca deixar de ser meio desaforado, ao que ela responde "Claro! 'Brigada! Ó, não esquece, hein? Esquerda!", e pisca amigavelmente para o homem. Ele e o cobrador se entreolharam apavorados com a mudança de humor da garota, tudo captado pelos olhares atentos dos passageiros fofoqueiros. "Essa é bipolar com certeza.", comentou um engraçadinho qualquer no fundão do ônibus. Um dorminhoco, sentado também lá no fundo, perdeu essa piadinha, bem como todo o episódio surreal, e saltou logo no ponto seguinte. Ignorância é uma benção.
Beth estava disposta a esquecer todo o perrengue causado pela falta de carro se, a partir da chegada ao Truta Traidora, cada passo do encontro fosse executado com perfeição, ou pelo menos sem ferver mais ainda seu sangue. Ela chegou ao Truta Traidora às oito horas em ponto. O (na cabeça dela) príncipe encantado estava intoleravelmente atrasado. Já são oito e quatro, eu disse QUA-TRO, e nem sinal do desgraçado do príncipe encantado! No segundo em que vir esse palerma, ela vai dar uma bronca como nem a mãe soube dar!
Pois bem, oito horas e seis minutos, e o palhaço chegou. Beth já preparara o discurso furioso, mas ele ficou perdido nos olhos castanhos do rapaz. Aquela sensação gostosa de encontrar a pessoa ideal. Gostosa e duvidosa, já que ela sabia tanto sobre Direito quanto não sabia sobre gente, especialmente sobre si mesma. Tentou ser o mais simpática possível.
Oi, Beth cumprimentou-a com os beijinhos na bochecha que são de praxe , desculpa o pequeno atraso, eu sei como você gosta de chegar antes da hora. Aconteceu uma coisa inacreditável. 'Cê 'tá aqui há uns vinte minutos, n'é não?
Hehe, não, na verdade eu cheguei exatamente às oito
Eu realmente chegaria antes, mas o trânsito, sabe como é
Essa cidade é monótona e tal, mas sexta-feira à noite quase parece cidade grande, tudo movimentado, ninguém fica em casa, é muito esquisito.
Uh
O que aconteceu de inacreditável?
No ônibus pra cá ele ganha tão bem quanto ela, mas gasta com cuidados médicos para o pai; não dá pra ter carro , uma maluca ameaçou o motorista com uma faca, e nem era um assalto. Ela disse que o ônibus não chegava nunca aonde ela queria. Não tiro a razão dela, o novo itinerário é bem estúpido, mas que a mulher era doida, era.
O maior choque da vida de Beth. Ficou um longo tempo de boca aberta, construindo cuidadosamente a próxima frase. Qualquer vírgula errada pode ser fatal. Se ele ficar sabendo quem era aquela louca, será a pior primeira impressão já deixada na história da humanidade. Não se preocupem, ela não é burra o suficiente para corrigi-lo dizendo que era um canivete e não uma faca.
Er
Uau
Tá aí uma ótima história pra contar pros netos! Você
chegou a ver quem era essa maluca?
Não, Beth, 'cê sabe que eu ando fazendo serão demais, ando com um sono do cão ultimamente. Eu 'tava grogue, não vi nada direito. Confesso que fiquei com medo de saltar no mesmo ponto que a psicótica, então esperei o próximo ponto e vim andando, por isso cheguei um pouquinho depois. Você, que já tem um carrinho importado, não precisa passar por isso, né? Hahahaha.
Hahaha, é
Eu sou uma mulher de sorte! Hahaha! aaaah, isso é muito verdade, Beth. O "príncipe" nem desconfia de como isso é verdade. Ignorância é uma benção.
Engraçado
Nós dois fizemos o possível pra chegar na hora e nenhum de nós conseguiu. Parece que o Universo 'tá tentando nos dar alguma lição. Ele não quer que a gente planeje demais, porque nunca vai estar tudo sob nosso controle. filosofava o "príncipe", enquanto dava mais uma garfadinha em seu risoto. Tentar resolver os problemas se estressando não leva a nada, só deixa a pessoa mais desorientada e irritada ainda
Nossa, fiquei até com pena da maluquinha agora.
Essa pequena lição de vida com a maior cara de frase de livro de auto-ajuda encontrou no cérebro de Beth uma receptividade maior do que a de qualquer ensinamento jurídico que tivera. Ela interpretou como um alerta: segura a onda, mulher, ou você não vai se dar bem nem como advogada nem com o cupido.
Esqueça os contratempos que você enfrentou e aproveite ao máximo a sorte de não ter sido reconhecida antes e ainda ter chances com o seu se você insiste príncipe. O resto da vida é uma incógnita, mas este fim de noite de sexta-feira ainda pode ser perfeito. E daí que ele costuma ver jornal todo dia e o seu barraco é matéria certa para a edição de amanhã?











